sábado, 24 de agosto de 2013

A crise ou o grande embuste

“A DÍVIDA” – OU O GRANDE EMBUSTE 


“Os donos de Portugal”, bem acompanhados pelos seus seus cúmplices e apaniguados de todos os matizes, conduzem desde há anos, uma orquestrada campanha de propaganda que procura persuadir os desafortunados naturais deste país de que “a crise” e a consequente “dívida”, são fruto da sua irresponsabilidade. 
“Vocês, consumiram acima das vossas possibilidades”, repreendem-nos constantemente, adiantando que só existe uma forma de resgatar o nosso desvario. “Os portugueses têm de se sacrificar para recuperar a economia nacional”, o que quer que signifique a dita economia nacional, uma expressão tão equívoca como “os milagres de Fátima”.

Outros bufarinheiros da política, acompanhados por uma cáfila de tri-doutores e dos mais diversos especialistas da boa vida à custa do trabalho alheio, tratam de atapetar com cardos o futuro da população, “Nunca mais se poderá regressar ao período consumista anterior, que destruíu a nação. O regabofe acabou”, proclamam.

“Será assim?, os nossos filhos e netos terão forçosamente de viver pior do que nós ?”. “Qual será o nosso futuro?”, pergunta-se uma população aterrorizada pela miséria crescente e a angústia gerada pelo sequestro de que é vítima.

Vejamos então as origens, efeitos, crimes e fortunas, que se encontram na génese da actual situação.

Podemos começar por separar as águas e dividir as causas da praga que nos caíu em cima em duas ordens de razões, as endógenas, ou internas, e as exógenas, ou externas.

No que diz respeito às causas endógenas, saliente-se, antes do mais, o facto de a dívida externa, de que falamos, ser praticamente idêntica no que diz respeito à sua atribuição, cerca de 50% por compromissos do estado português e os outros 50% por parte de empresas privadas. Isto muito ao contrário do que apregoam diariamente os tagarelas propagandistas e profetas da desgraça. Com todos os meios de evangelização de massas ao seu dispor, sempre servilmente ajoelhados perante o poder fáctico, todos estes trapaceiros, mercenários da caneta e os seus mandantes, impigem-nos as mais manhosas histórias da carochinha que a sua desaforada imaginação consegue conceber. Todas elas com idêntico obectivo, capacitar-nos do inevitável empobrecimento popular, coagidos a trabalharmos mais e a ganharmos menos, obrigados a submeter-nos à extinção de todas as formas de salário indirecto que ao longo de largos anos de luta foram conquistados por todo mundo. Estes tartufos de alto coturno, juram a pés juntos que a dívida externa é estatal e tem a sua raíz no consumo excessivo, das pessoas e do estado. E, com a esperteza saloia que os caracteriza, tratam de empalmar a realidade, ou seja, asseguram que a maior parte dessa dívida externa se deve a operações com origem no consumo privado popular, efectuadas sobretudo através da utlização do crédito bancário.

E, com semelhantes ardis, procuram escamotear a sua sofreguidão em liquidar os mais diversos apoios e actividades estatais de caracter social. Enquanto isso, estes mesmos cegos com olhos, nos quais no lugar das púpilas brilha o seu amo e senhor, o cifrão, estabelecem chorudas negociatas com toda a espécie de argentários, arrotando euros aos milhões para se apossarem do património do país. Quem aproveita esta ocasião dum modo desavergonhado, como felizes contemplados em tais liquidações por motivo de saldo, são as empresas dos finórios pertencentes à mesma trapaça política, no regaço das quais os “homens de estado” podem sempre encontrar um opíparo tacho à sua espera.

Mas, a verdade dos factos é bem diferente daquela que nos é apregoada. Da dívida privada externa que, repito, constiui 50% da dívida externa total, nada menos do que 63% resulta da especulação bancária e apenas 15% provém das dívidas das famílias, ou seja, apenas 7,5% da dívida externa completa é devida ao consumo privado. É esta a realidade, o apostalado sobre o aterrador consumo execessivo “acima das nossas possibilidades”, que constitui a principal bandeira da hipócrisia governamental e dos seus bem estipendiados acólitos, representa apenas 7,5% da dívida externa total. E, convém não esquecer que os potenciais consumidores “execessivos”, foram vítimas de dois factores conjugados.

Por um lado, o anseio de ultrapassar as penosas vicissitudes da vil tristeza das gerações passadas na perseguição de um sonho, o arremedo daquilo que se vivia na Europa que, a partir da adesão ficaria “Connosco”, como apregoavam os políticos no poleiro desse período, ao mesmo tempo que escancaravam despudoradamente os portões do país, desde então idefenso face às garras do capital global. 

Por outro lado, vitimou-nos por igual a política agressiva da banca, no engodo ao fácil crédito consumista com que se apressou a aliciar os incautos clientes. 

Na realidade, e naquilo que diz respeito à divida externa do país, as suas componentes são as seguintes, 63% è devida à especulação bancária, 15% é atribuível ao consumo privado, enquanto o restante se encontra nas mãos da banca, tendo como destino, ao que apregoam, o apoio à economia.

Nesta trapaça, a especulação bancária utilizou os mais diversos expedientes para engrossar os seus lucros, correndo para esse efeito riscos elevados, que nós agora suportamos. No imediato, trataram de se aproveitar do diferencial entre as taxas de juro passivas, que pagavam pelos empréstimos contraídos junto da banca internacional e as taxas de juro activas, que cobravam aos seus clientes, sobretudo no crédito à habitação, mas também no consumo de bens duráveis e de férias. Os comerciantes de dinheiro da banca portuguesa procuraram de todas as formas engodar os fregueses para os seus planos de crédito, na altura anunciados como o máximo dos deslumbramentos na terra, a oportunidade única de consumir bens até então inacessíveis, segundo o lema “Consuma agora e pague depois”. Todas estas operações de crédito foram suportadas com bons juros, só aparentemene acessíveis, que os negociantes da banca conhecem muito bem a sua usura. 

A ganância atingiu tal dimensão que, quando os problemas de pagamentos ao exterior já afligiam o estado e muitos pediam um acordo de empréstimo junto da UE, os banqueiros afirmavam o contrário e, em sucessivas declarações públicas, asseguravam a pés juntos que semelhante recurso era completamente desnecessário. Os seus lucros ainda não se resssentiam dos perigos de falta de créditos que já ameaçavam a “pátria”, mas logo que a torneira do crédito externo se lhes fechou, mudaram subitamente de opinião e tornaram-se nos mais entusiastas apaniguados do acordo com a futura Troika. A partir de então ficava em causa o seu “patriotismo” que, como é de regra, de novo vinha ao de cima. 

Enquanto a possibilidade do recurso ao crédito externo barato durou, os bancos portugueses conduziram de tal forma os seus mecanismos que precipitaram a economia numa robusta bolha imobiliária. Foi aí, principalmente no sector da habitação, onde o despudor não teve limites, que a mescambilha do crédito se tornou mais evidente. E, apesar de ardilosomente escondida com a cumplicidade das mais “insuspeitas” autoridades, ela aí está, a bolha imobiliária, que força o povo português a apertar cada vez mais o cinto para a pagar, enquanto os hipócritas que a forjaram se pavoneam nos antros de luxo que nós aguentamos. 

Durante muito tempo, era comum uma Câmara Municipal deste país, através do seu presidente, do vereador do pelouro de habitação e urbanismo, ou de todos juntos, olhar para um terreno da sua área de jurisdição como uma mina de ouro, da qual só lhes interessava retirar o máximo de pepitas possível, sem olhar a meios, nem a consequências. Por isso mesmo, depois de identificarem um “bom” lote de terreno até aí não urbanizável, faziam “um acordo de cavalheiros de indústria” com uma empresa imobiliária cúmplice, por vezes propriedade de familiares. Essa imobiliária comprava o dito terreno por baixo preço, por exemplo, a 2 euros o metro quadrado. De seguida, um arquitecto de confiança procedia ao levantamento desse terreno que, após os habituais trâmites, era classificado pela Câmara como urbanizável. Desse modo a sua valorização era imediata e o preço de cada metro quadrado multiplicava-se, digamos por 400, ou mesmo muito mais, passando o seu valor a ascender a 800 euros. Frequentemente, ainda não satisfeitos com a falcatrua, os promotores imobiliários dirigiam-se à administração cúmplice de um banco “amigo” e pediam o capital necessário à construção de um futuro empreendimento imobiliário, sendo a garantia oferecida o terreno anteriormente valorizado. Muitos desses chamados empreendimentos imobiliários nem sequer passaram do projecto, outros foram edificados, mas permanecem com os andares vazios, no entanto o principal objectivo, o lucro chorudo, já tinha sido embolsado. Para além disso, os imóveis que chegaram a ser edificados, foram avaliados muito acima do seu verdadeiro valor e dificilmente se vendiam. Hoje, deflacionados e próximos do seu valor real, valem em média menos 40% do que então, continuando, cada vez mais, sem encontrar comprador. O que para os astuciosos causadores deste saque não representa grande problema, uma vez que as suas contas bancárias foram entretanto convenientemente recheadas. Calcula-se que estas casas vagas, construídas nos últimos 15/20 anos, juntamente com a construção antiga de habitação devoluta, atingem a espantosa cifra de 2 milhões de casas sem gente por todo o país. 

Foi desta forma que se criou a bolha imobiiária, com os bancos em pré-falência, mas com os seus administradores e directores mais ricos do que nunca, bem acompanhados pelos ditos promotores imobiliários e dos variados responsáveis camarários que interferiram nestes processos de pilhagem. 

Acresce ainda, que muitas das ditas empresas imobiliárias não pagam IMI. Com esse objectivo, os tais promotores trataram de criar empresas de promoção imibiliária de caracter fechado, o que as isenta do imposto. Seguem, afinal a norma geral deste país, onde a pilhagem fiscal atinge maioritariamente os assalariados que, juntamente com os pensionistas e os pequenos e médios capitalistas, suportam a maior parte das despesas estatais, incluindo as colossais verbas derivadas do serviços da dívida. Os bancos e os possuídores de grandes fortunas, tal como as empresas rentistas e aquelas especializadas em áreas e negócios altamente lucrativos, forjados em oligopólios ou em negociatas de origem duvidosa, não são integrados de forma proporcional nos badalados “sacrifícios”. Ou seja, os mais ricos e as empresas mais rentáveis e lucrativas gozam de previlégios inerentes ao seu poderio e ao compadrio reinante, sendo-lhes permitido o recurso a escritórios especializados na fuga fiscal e a off-shores, para se eximirem ao pagamento de impostos mais elevados. 

A dimensão desta e de outras falsificações, a nível local e central, é de tal ordem que foi avaliada como responsável pela transferência de qualquer coisa como 66.000 milhões de euros dos cofres públicos para as mãos de privados pouco recomendáveis.

Mas também a dívida pública tem muito que se lhe diga. E, semelhante panorama não foi apenas devido à função de avalista que o estado assumiu, por via do financiamento externo ao qual os responsáveis pelos investimentos em muitas empresas públicas, votadas à sua sorte sem investimentos por parte do estado-patrão, foram forçados a recorrer. 

Também as badaladas parcerias público-privadas, nomeadamente aquelas das vias de comunicação e da rede hospitalar, contribuíram para esta negra cifra. Só no ano passado, o estado pagou, a título de compensação, 500 milhões de euros às empresas exploradoras das auto-estradas, ditas SCUT. E o caso da ponte Vasco da Gama é paradigmático. Foi entregue a uma empresa privada porque, diziam os governantes, o estado não tinha recursos financeiros para se abalançar a um investimento tão voltuoso. Mas, na realidade o que se passou foi o seguinte. A empresa à qual o governo entregou esse empreendimento apenas contribuíu com 20% do seu custo e, à laia de compensação, o estado entregou-lhe não só a exploração dessa ponte, como também a da 25 de Abril, que já se encontrava totalmente paga. Para “facilitar” a vida” aos utentes, a Lusoponte, a empresa concessionária, encontrou uma medida orginal, aumentou o preço das portagens e acabou com a gratutuídade no mês de Agosto. Tudo isto com o beneplácito dos “homens de estado”...

Por sua vez, os hospitais público-privados, construídos e equipados pelo estado com o dinheiro que nos é extorquido através do saque fiscal, dão prejuízos de largas centenas de milhões, que o erário público suporta, ... à nossa custa. Este sorvedouro de dinheiro, junta-se àquele ainda maior dos contratos leoninos das empresas concessionárias das auto-estradas, formadas por todo o país por meio de uma aliança entre as maiores empresas de obras públicas e os bancos. Através desses contratos, o estado obriga-se a garantir somas enormes aos concessionários, mesmo que o tráfego nas estradas seja, como acontece actualmente, extremamente reduzido. Estamos perante um processo em que os “investidores” têm a segurança de lucros enormes à custa dos impostos que nos são sacados. 

Saliente-se que os contratos ruinosos deste tipo não existem em mais nenhuma parte do mundo, os que existiram foram extintos. 

Também as lucrativas e ruínosas negociatas bancárias, deram um farto contributo para esta situação. Como foi o caso do banco BPN, criado e administrado por amigos do actual presidente da República. O somatório das diversas parcelas do gigantesco buraco criado por esses trafulhas não deve andar longe dos 8.000 milhões de euros. E, igualmente o Banco Privado Português, que hoje o poder político procura manter no olvido, além do Banif, cuja dimensão do golpe ainda hoje se ignora e também o apoio a todos os outros bancos, efectuado, as mais das vezes, com jogadas obscuras de compadrios e empréstimos simulados.

Torna-se assim mais fácil perceber a verdadeira origem de uma dívida. que os apologistas do saque generalizado atribuem ao consumo “acima das nossas possibilidades”, de onde extraem como conclusão, própria de semelhantes hipócritas e simuladores, a necessidade de “sacrifícios” impostos ao povo, como a expiação de uma culpa que nos é alheia.

A dívida foi claramente contraída por essa corja, pelos governantes, os banqueiros e demais capitalistas. E actualmente é utilizada para que os “homens de estado” concretizem uma constante ambição do capital, extorquir tudo o que podem aos trabalhadores para o canalizarem para os capitalistas. É para isso que nos reduzem os salários e as pensões de reforma, nos aumentam a jornada e os dias de trabalho, nos esmagam os salários indirectos, nos aumentam os impostos e, de todas as formas, nos vigarizem e nos roubam. Para que o rendimento do país seja apropriado em cada vez maiores proporções pelo capital. Tudo este sinuoso percurso é facilmente demonstrável. Senão vejamos, no período anterior à queda da ditadura o rendimento do país era distribuído por todos os portugueses nas seguintes proporções: 58% para os capitalistas, a minoria e os restantes 42% pelos trabalhadores, a grande maioria. Após o 25 de Abril, e nos anos que se lhe seguiram, foi possível inverter essa distribuição, ficando os trabalhadores sensívelmente com 58% da riqueza anual produzida e os capitalistas com 42%. Hoje já vivemos novamente com uma distribuição idêntica à do período salazarento, ficando os capitalistas com a maioria do rendimento e os trabalhadores com a fatia mais pequena. Mas ainda não estão satisfeitos! Por todas as formas procuram roubar-nos cada vez mais. O actual governo procura levar a bom porto essa ambição, utilizando sem pudor o pretexto da dívida e dos compromissos internacionais. Quanto aos compromissos nacionais, perante o povo que os guindou aos poleiros que ocupam e os sustenta, constituem letra morta para essa canalha.

Debrucemos-nos ainda sobre um outro aspecto que condiciona a realidade deste país, a destruição das capacidades produtivas de Portugal. Há 25 anos, com a adesão de olhos fechados, sem quaisquer precauções, à União Europeia, na altura CEE, os sucessivos governantes aceitaram desmantelar as unidades produtivas nacionais a troco de algumas ajudas financeiras prontamente malbaratadas, através de distribuição dos ditos dinheiros entre os amigalhaços do bando do poder. Bem como, através da produção de diversos elefantes brancos do regime, da corrupção crescente e de uma exagerada rede de vias de comunicação que, face à pobreza franciscana da produção do país, se transformaram em vias crescentemente utlizadas para a importação toda a espécie de produtos, industriais e agrícolas dos parceiros da UE, como sejam os bens industriais da Alemanha e os produtos agrícolas de França.

Assim se destruiu a indústria, de substituição e de consumo corrente, a agricultura e as pescas. E, de tal forma isso foi conduzido que, hoje em dia, quase 60% dos alimentos por cá consumidos são importados. Enquanto isso, cerca de 500.000 ha. de terras com aptidão agrícola foram votadas ao abandono, por camponeses também eles por sua vez abandonados pelos senhores do poder, e forçados a fugirem das suas terras, hoje desertificadas de gentes, ou entregues aos desamparados velhos que por ali resistem. 

Em substituição da produção local, desenvolveram-se com o suporte governamental, enormes quantidades de serviços de reduzido valor acrescentado e agigantaram-se, com beneficio das clientelas partidárias e prejuízo dos consumidores, os parasitismos dos rentistas, em áreas como a banca e os seguros, a electricidade, os telefones e as telecomunicações, bem como os combustíveis. A esta lista, falta ainda o sector das águas, actualmente em avançado estado de decomposição, destinado a permitir o golpe final. 

O resultado destas dificuldades económicas, com um país estagnado, sem crescimento económico há muitos anos, onde aumentaram as necessidades de mercadorias e serviços modernos, induzidas pela necessidade, pelo crédito mais fácil e pelo marketing agressivos, juntaram-se ao depauperamento de uma oferta nacional de rastos e reduzida, conduzindo a um avolumar das importações. Perante esta situação, acompanhada por um volume de exportações de valor reduzido, registou-se um constante agravamento da balança de pagamentos, só possível de suportar com sucessivos recursos ao crédito externo, destinados não só à importação de bens de consumo, mas também de bens de equipamento e de luxo, bem como de inúmeras situações provocadas pela importação de mercadorias e serviços destinados a satisfazer os autênticos desatinos de investimentos supérfluos por parte da nomenclatura lusitana.

Face a este beco com poucas saídas, a hipocrisia ilimitada dos “homens de estado” tem atingido os pináculos da fantasia, recorrendo de forma sistemática ao uso de expedientes ilusórios com que nos pretendem converter ao seu credo. Estaríamos, garantem eles, a atravessar uma fase de transição, através da qual os apregoados “sacríficios” irão tornar possível o “cumprimento das nossas obrigações”, face aos credores representados pela Troika e, uma vez chegados aos “mercados”, em 2014, iremos arrancar para uma nova fase de crescimento e progresso.

Nada mais falso! Jamais foi possível assumir os compromissos com a dívida externa pagando o serviço da dívida, a um país em recessão. E, só este ano,o pagamento da dívida externa vai custar aos portugueses imolados à lei do lucro com os “sacríficios” que lhes são impostos, um valor que rondará os 9.000 milhões de euros.

Na verdade, com semelhantes condições, impostas ao país pelos credores, destruídoras das últimas capacidades produtivas e geradoras de um empobrecimento generalizado, iremos afundar-nos cada vez mais na espiral da recessão e da dívida. Para se poder pagar atempadamente a dívida contraída e os respectivos juros, seria necessário que a economia crescesse com um valor pelo menos igual a 2% ao ano. Ora, como sabemos, acontece precisamente o contrário e a queda do PIB nacional acentua-se. Tomando como exemplo os últimos valores conhecidos, relativos ao primeiro trimestre de 2013, constatamos que indicam uma redução de cerca de 4% do PIB nesse período. Enquanto isso, as projecções possíveis, como é natural, não são absolutamente nada coincidentes com o falso optimismo dos vendedores de iusões. Na realidade, o único país que saíu do buraco recessivo em que se encontrava, enquanto suportava estas medidas contracionistas, impostas tradicionalmente pelo FMI, foi o Chile. Mas, é preciso perceber a que preço se tornou possível atingir esse objectivo. E facilmente se conclui que só foi conseguido através de uma sangrenta ditadura, imposta durante 20 anos e agravando o diferencial de rendimento entre pobres e ricos, alargado sem medida. As condições de vida da população nunca mais foram as mesmas, persistindo a um nível bem distante do período atingido antes do golpe fascista de Pinochet. 

Por outro lado, a miragem com que nos tentam iludir com o “regresso aos mercados”, ou seja aos bancos usurários, encobre uma realidade bem diferente dessa visão idílica com que procuram iludir a população. Os bancos prestamistas regem-se por normas rígidas na defesa do “seu” dinheiro, da sua segurança. Por isso não emprestarão dinheiro a um país de rastos, como ficaremos após esta ajuda devastadora, sem garantias reais e a a imposição de taxas de juro elevadas.

O resultado do apregoado “regresso aos mercados”, no enublado período a que chamam “pós-troika”, uma vez terminada a sua missão destrutiva em 2014, será a necessidade dos “homens de estado” contraírem novos empréstimos e aceitarem condições muito provavelmente ainda piores do que as actuais, mantendo-se a tutela de uma Troika encapotada e do Banco Central Europeu. De uma forma ou outra, nas condições devastadoras em que o país ficará no “pós-troika”, dependente de importações básicas e com os recursos de toda a ordem ainda mais reduzidos, facilmente se prevê que, continuando a seguir esse caminho, o futuro próximo não será melhor do que a realidade actual.

Os políticos de serviço não ignoram semelhante panorama mas, mestres no ofício de vendedores da banha da cobra, procuram iludir a população com a promessa de um futuro próximo radioso, para a compensar dos actuais “sacríficios” partilhados por todos aqueles que pertencem ao povo míudo, que as elites estão isentas de semelhante canga e até engordam os seus tecidos adiposos com o infortúnio alheio. Depois dos “amanhãs que cantam”, de uns, temos agora “a desumanidade embuçada” de outros”.

Já naquilo que diz respeito aos factores meramente exógenos, que contribuiram para este deplorável estado de coisas, terei de começar por referir a forma como esta União Europeia foi concebida, ou seja, uma união das grandes companhias e não uma federação dos povos europeus.

Uma união que não tem em conta as diferenças de produtividade, de capacidade produtiva e de fiscalidade dos diversos países, unindo-os sob a bandeira de uma unidade monetária e alfandegária, com orçamentos distintos, sem a entreajuda necessária entre as diversas regiões. Naturalmente que um processo destes só pode conduzir ao agravamento das assimetrias, em benefício dos mais fortes e aptos, céleres em tirar o máximo proveito de uma moeda única, da livre instalação em qualquer ponto do território da UE e da livre circulação de mercadorias, seviços e pessoas.

Semelhante percurso, sem as necessárias defesas e apoios aos mais débeis, teria obrigatoriamente de conduzir aos resultados bem conhecidos de roturas diversas, tal como aconteceu em situações idênticas, levadas a efeito noutros contextos. O caso da união dos diversos estados e autonomias da Itália é, para esse efeito, bastante significativo. A ausência de medidas correctoras e de apoio às regiões menos preparadas industrial e financeiramente, a sua abertura total e indefesa face às regiões mais aptas à união económica sem entraves, levou ao agravamento da situação das regiões do sul, com os efeitos cumulativos que se conhecem, particularmente nos aspectos do sub-desenvolvimento e da dependência relativas E não basta despejar sacos de dinheiro nessas zonas para se obter um crescimento harmonioso. O processo de acumulação de capital é, pela sua natureza hierárquica e centralista, assimétrico, concentra-se nas zonas onde os factores produtivos são mais atractivos, mais lucrativos, abandonando, mais ou menos acentuadamente, as restantes regiões, com os fluxos finaceiros e de toda a ordem a dirigirem-se para os centros mais atractivos. É o que acontece em Portugal, bem como em muitas outras regiões da Europa e do mundo. 

Note-se porém, que, dado os efeitos cumulativos deste processo e a sua transmissão, nomeadamente através da via financeira, as dificuldades dos mais débeis nas vertente orçamental e da balança de pagamentos, entre outras, irão sentir-se cada vez mais por todo o lado, inclusivamente nos países até agora beneficiários desta situação.

Para percebermos a chamada crise, que entre nós se torna evidente através da dívida externa, precisamos de ter em conta que a classe capitalista e os seus mandatários políticos dos diversos países, e não só da Europa, age dinamicamente na busca de saídas para os problemas que encontra. Sem peias, nem pruridos por parte desses argentários e dos seus representantes governamentais, que colocam sempre em primeiro lugar os lucros esperados e a segurança do capital investido. Por isso mesmo, no próprio coração actual do capital europeu, a Alemanha, já há mais de 10 anos que o governo, por sinal social-democrata, lançou um processo de redução dos custos do trabalho e daquilo a que chamam racionalização do processo produtivo, que se pode traduzir por piores condições para os trabalhadores com um único objectivo. Proporcionar melhores condições para a obtenção de lucros por parte dos capitalistas locais.

É devido a essa mesma necessidade de obtenção de maiores lucros, que os diversos estados cooperam na transferência de capitais à velocidade da luz, através dum simples clic num computador, para se dirigirem às zonas e sectores onde farejem boas oportunidades de lucro significativo. E, dadas as dificuldades na obtenção de mais valias consideráveis noutras áreas, esses capitais deslocam-se prioritariamente para a especulação financeira. 

Por isso mesmo, em Londres, a maior praça financeira do mundo, transacionam-se operações com títulos de dívida, futuros e muitas outras sem correspondência com a economia real, num valor superior a seis vezes o PIB mundial. De tudo isto resulta que por toda a parte se assiste a um nível de concentração de capitais inimaginável, segundo o princípio “o peixe grande come o peixe pequeno”, e semelhante insanidade já alcançou tal dimensão que as 63.000 pessoas mais ricas do planeta possuem 57% do PIB mundial.

Torna-se evidente que o desenvolvimento tecnológico e a interdependência global atingidas actualmente já não cabem nos estreitos limites de uma organização social que se fundamenta no lucro, na hierarquia e no salariato. 

Tenhamos em conta que já não é apenas o capital que não tem pátria, agora, as pátrias também não têm capital.

A organização social simbolizada pelo capital, em que uns poucos monopolizam a gestão da sociedade porque são os donos ou mandantes dos instrumentos de produção, das coisas e do dinheiro/capital, enquanto a maioria tem de lhes obedecer e trabalhar´assalariadamente sob as suas ordens e para eles, encontra-se actualmente ultrapassada pelo desenvolvimento tecnológico e organizacional que conduziu à situação da actual. 

É indispensável encaminharmos-nos para uma nova organização social. 

Tendo sempre presente a antiga aspiração da Associação Internacional dos Trabalhadores, “A emancipação dos trabalhadores tem de ser obra dos próprios trabalhadores ! ”








terça-feira, 21 de maio de 2013

que sindicalismo queremos em Portugal?


No próximo dia 23, a partir das 18,30, será realizada a última das Jornadas Sobre Sindicalismo, promovidas pela Tertúlia Liberdade, no Museu da República e Resistência - Grandela na Estrada de Benfica, 419 (metro Alto dos Moinhos), em que será abordada a situação em Portugal.
Estarão presentes vários elementos ligados ao do movimento sindical português entre eles, um elemento do Sindicato do Estivadores. Contamos igualmente com a participação de um representante da corrente anarco-sindicalista.
Pretendemos apreciar a situação do sindicalismo em Portugal e os caminhos possíveis. Queremos um sindicalismo corporativista ou de combate activo?

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O sindicalismo de combate - a experiência do SAT na Andaluzia


No Museu Republica e Resistência na Estrada de Benfica nº 419, Edifício Grandela (Metro Alto dos Moinhos) na próxima quinta-feira dia 16 de Maio Francisco León e Francisco Cubero irão falar connosco sobre a luta tenaz do SAT (Sindicato Andaluz de Trabalhadores) por uma sociedade diferente e melhor.

O SAT, é um sindicato autónomo, autogestionário, assemblário, sem membros privilegiados e com mais de 20.000 membros em toda a Andaluzia. Combate o capitalismo particularmente nas zonas rurais, onde nasceu. Criou cooperativas agrícolas, agroindustriais e de habitação. No seu quotidiano usa a acção directa, ocupa estradas, supermercados, bancos e latifúndios num sindicalismo de combate.

Como em Somonte, de onde Francisco Cubero é natural. Esta será uma oportunidade de trocar impressões com eles. Esta iniciativa integra-se nas Jornadas sobre Sindicalismo que estamos a promover em parceria com a Biblioteca/Museu da República e Resistência.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Feiras de Autogestão na Casa da Achada


Local - Exterior da Casa da Achada - Rua da Achada - Mouraria

Data- 11 de Maio, sábado das 16,30 às 20h.

FINALIDADE - Dar a conhecer as realizações no campo da autogestão e cooperativismo e iniciativas individuais, que evidenciam a possibilidade quer de formas de organização baseadas na cooperação e no apoio mútuo, quer iniciativas de diversas pessoas que lutam contra o desemprego e o abandono a que são votadas. Numa demonstração de colaboração e luta por novas formas de viver.

Estarão presentes nas suas bancas várias cooperativas. associações e indivíduos que darão a conhecer as suas experiências

E também haverá Gastronomia e Música ao Vivo, com José Gordilho e o Flamenco Entre Amigos.
Será a 2ª sessão das Feiras de Auto-Gestão, promovidas pela Tertúlia Liberdade.

Jornadas Sindicais


Na 5ª feira, dia 9 de Maio, terá lugar no Museu República e Resistência edifício Grandela na Estrada de Benfica, 419, a partir das 18,30 mais uma sessão integrada nas Jornadas Sindicais, promovidas pela Tertúlia Liberdade.

Haverá uma vídeo-conferência com o sindicato autónomo de professores do Rio de Janeiro. Uma experiência sindical combativa e diferente daquilo que conhecemos.

Pelo sindicato falará Alexandre Samis, professor universitário do Rio de Janeiro e o seu interlocutor será o José Nuno Matos, doutorando em sindicalismo. Em seguida irá travar-se um debate.

terça-feira, 9 de abril de 2013

ÀCERCA DA PRODUTIVIDADE E NÃO SÓ


No chinfrim que os políticos de profissão lançam sobre "o indispensável aumento da produtividade", que juram a pés juntos tratar-se de uma panaceia obrigatória ao curativo da venerada economia nacional, caninamente ampliado pela auto-intitulada e domesticada comunicação social, a impostura, o embuste e a ignorância dão as mãos para nos enredarem numa nebulosa de trapaças e persuadirem-nos a oprimirmo-nos a nós próprios. E tudo isto em favor da celestial economia nacional, essa venal dama que só se deixa seduzir pelos detentores de adiposas contas bancárias.
Semelhantes sujeitos falseiam sem sombra de pudor, quando nos asseguram que é obrigatório trabalharmos muito mais horas para que a dita produtividade possa aumentar. Com esta e outras falsidades, confundem deliberadamente o aumento da taxa de exploração, que perseguem sem dó nem piedade, com a produtividade que apregoam.
Por isso mesmo, procuram iludir os trabalhadores garantindo que só através do esforço de todos, com mais trabalho e menos descanso, poderemos aumentar a produtividade e dessa forma atingir o nível de vida da Alemanha, da Suiça e doutros países. Como o cinismo não paga imposto, nem a mentira mais descabelada é sancionada, procuram escapulir-se à socapa apesar de semelhantes aleivosias, enquanto se gabam de serem reconhecidos internacionalmente como personagens de elevado gabarito. Desgraçados pigmeus intelectuais, cujo valor reconhecido não ultrapassa as fronteiras dos seus cúmplices de lúgubre ofício.
Trafulhas exímios, o seu único talento, é o de escamotearem que a única produtividade de que falam, a do trabalho, já que as restantes, como a do capital ou a da tecnologia lhe são alheias, não é o resultado do aumento do tempo de trabalho. Resulta, isso sim, do aumento de produção obtido através da introdução da tecnologia, da inovação  e  da organização. Mas estes factores produtivos estão acima das suas competências e interesses.
Porém, aos novos negreiros só lhes interessa um percurso para obterem o ambicionado aumento dos lucros e manterem a sua função, cada vez mais enfraquecida, de uma burguesia sem defesas externas e assediada pela feroz competição global. Ou seja, o aumento da exploração, obtido através do prolongamento do tempo de trabalho e da redução dos salários, directos e indirectos.
Esta classe de políticos ignorantes e presunçosos, acompanhada de uma burguesa local semi-analfabeta e pretenciosa, demonstra mais uma vez que é constituída por diligentes descendentes dos seus antepassados negreiros, em cujos métodos procura inspirar-se.
É assim que as falsidades saem das suas bocas com a mesma facilidade com que os seus trejeitos histriónicos simulam pesar com a sorte que fazem sofrer à população. Por isso mesmo, acompanhados por diversos sacripantas, académicos e outros do mesmo jaez, repetem constantemente que os trabalhadores alemães têm bons apoios sociais e auferem muito maiores salários porque a sua produtividade é muitíssimo maior que a deste pequeno rectângulo. Deste modo, juram-nos por todos os santos e pelo seu omnipresente deus dinheiro, precisamos de aumentar a nossa produtividade para sermos pagos em conformidade com os trabalhadores alemães. Mentirosos sem remédio ou ignorantes completos? Talvez a combinação das duas vergonhas.
Pois, na verdade, a produtividade do trabalho na Alemanha é dupla da que temos por cá, mas os salários portugueses são quatro vezes menores do que os dos seus colegas alemães. O que significa que, para ganharmos como os trabalhadores alemães em função das respectivas produtividades, deveríamos auferir o dobro daquilo que recebemos. Estes trafulhas mentem descaradamente!
De facto, a anémica burguesia portuguesa e os seus representantes governamentais, perseguem apenas um objectivo, aguentarem-se na procela que atravessa o seu mundo e abala as suas certezas de opressores, enraizada por séculos de domínio e exploração de um povo, que sempre têm diligenciado amansar.
No surpreende assim que, entre ladainhas e promessas, busquem as mais requentadas saídas para  benefício das suas fortunas. Foi deste modo que há dias um personagem ministerial de elevado gabarito e triste figura, nos invadiu as casas via televisão, para anunciar o último desarrincanço governamental. A instalação em Portugal de dez mil reformados estrangeiros de elevadas posses.
Fazendo constante uso do seu falso sorriso, que procura assemelhar a uma Gioconda de fancaria, enquanto escondia a careca finamente penteada com os escassos cabelos que lhe restam, este importante figurão abriu as goelas, enquanto afagava um dos seus vinte mil fatos de elevado preço. E, na certa  com receio de uma reação menos cortez, fazia-se acompanhar de um bem nutrido corpo de seguranças. Cobrindo-lhe as costas, encontrava-se um deles, um mastôndico troglodita de rosto patibular, enquanto, de ambos os lados, se colocavam dois polícias anões, devidamente fardados. Mais atrás, em bicos de pés, procurando aparecer nas imagens televisivas, gesticulava um gorducho baixote, de cabelo ralo e olhar esgazeado. Tratava-se do ministro do pelouro económico, respeitosamente mantido à distância, como as seculares regras da hierarquia estatal impõem.
Cenário preparado e com os escrevinhadores atentos e veneradores, ouviu-se a vozinha esganiçada do ministro-chefe, que arengou,  "o nosso governo, sempre atento à  evolução dos mercados, tomou a firme decisão de desenvolver um novo de segmento do mercado turístico. Uma autêntica frieira, perdão, fileira, que muito irá contríbuir para uma ainda maior animação do nosso turismo". Aqui chegado, alargou-se o seu falso sorriso giocondesco e, em tom esforçado, a sua débil vozinha pigarreou, " Vamos criar condições para receber 10.000 turistas no imediato e alargar rapidamente esse número. Nós possumos em Portugal óptimos condições para os receber". E, sempre no mesmo piar, lá prosseguiu o sermão, garantindo a bondade da iniciativa, implicitamente da sua larva, sempre em nome de uns desconhecidos "nós" e invocando a toda a hora um incerto Portugal, mas jamais deixando a descoberto, quem são semelhantes "nós" e a que Portugal se refere, deixando igualmente  encerrados em espessa neblina todos os aspectos concretos de   semelhante  negociata.
Despudoradamente, garantiu-nos, isso sim, que Portugal é  um país  óptimo para se viver e que os tais reformadas  de posses, anseiam receber os benefícios do "nosso" sol e da "nossa" tranquilidade. Teve mesmo o desplante de revelar que, para converter os potenciais clientes ao seu credo,  vai assegurar-lhes uma fiscalidade mínima. Muito ao contrário dos trabalhadores e reformados portugueses, afogados e torturados com uma cada vez maior canga fiscal, esta gente irá pagar um imposto reduzido.
Terminada esta encenação, retirou-se pela direita baixa, sempre acolitado pelo baixote lunático, seu colega, bem como pelo segurança mastadôntico e os polícias anões. Isto tudo, sem que nenhum dos presentes lhe exige-se regalias semelhantes às anunciadas para os endinheirados visitantes.
É bem verdade que esses reformados de outras bandas não estão sujeitos aos tratos de polé que o governo proporciona aos seus homólogos portugueses e, se alargarem por cá os cordões à bolsa, irão possibilitar aos donos de Portugal, isto é, os tais "nós", a compra de mais popós de luxo, viagens principescas e estadias em resorts de elevada categoria, além da constante frequência de institutos de beleza e bordéis de sonho, em toda a parte do mundo. Isto tudo,  entre muito outros privilégios. Mas nós também somos gente, senhor ministro. E, ao longo de toda uma vida, sustentamos as mordomias e regabofes com que você e os seus colegas se delíciam.
Ou não será que também  tem de ser reduzida  a canga fiscal com que nos asfixiam? Já sabemos a resposta, conhecemos o embuste cínico com que nos mimoseam. Com que procuram  justificar o injustificável,  como a hemorrogia de gentes que este país está sofrendo, em que  200.000 pessoas  fugiram à  miséria com que nos contemplam, só nos últimos dois anos. Mas, afinal, não será esse o vosso objectivo governamental? Expulsar do país aqueles que se sentem estrangeiros na sua própria terra, utilizando a emigração como válvula de escape, como um  alívio das tensões potenciais, geradoras daquilo que os donos do país mais temem, o estalar de uma revolta social, isto apesar da apregoada mansidão que nos atribuem e dos cínicos elogios  a essa pretensa caracteristica lusitana. E tudo isso enquanto por todos os meios procuram apressar a morte dos velhos pobres, que para essa cambada não representam mais do que onerosos encargos financeiros.
Ou talvez também seja conveniente para as gentes do capital e do estado que a grande maioria da população emigre, enquanto apressam a morte dos velhos e dos doentes. Neste momento tudo indica que se propõem levar  à cena o segundo acto desta manhosa novela, ou seja, a substituição da maioria dos portugueses por velhos estrangeiros abonados. Enquanto que, àqueles trabalhadores de matriz lusa que por cá restarem, lhes está reservada uma função especial, a de criadagem servil dos macróbios endinheirados.
A estes tri-doutores, argentários, propagandistas e parasitas estatais, que a toda a hora nos apavoram com a baixa produtividade nacional, convém colocar uma questão. Qual é a vossa produtividade?
Qual a produtividade de um deputado? De um ministro? De um banqueiro? De um capitalista? De um privilegiado parasita estatal? De um administrador? De um mercenário da caneta? De um insensível académico tri-doutor? De um sacerdote ou de um general? Como devemos avaliá-la,  mensurá-la ou classificá-la?
Será através do número de leis anti-populares promulgadas num ano, que um boçal deputado aprova, segundo as ordens da sua máquina partidária, que a sua produtividade se mede? E um ministro, vamos medi-lo por via do aumento dos lucros que a sua política proporciona mensalmente aos capitalistas nacionais? Sobre a produtividade de um banqueiro, certamente  que será mensurvel através do aumento dos lucros que o seu banco arrecada anualmente e, proporcionalmente, ao aumento da miséria da população. Quanto à produtividade do administrador de uma grande empresa, será de recear que se meça, quer pelo aumento dos ansiados lucros, quer pelo consequente despedimento e empobrecimento dos seus trabalhadores. Sobre os propagandistas travestidos de jornalistas, decerto que a avaliação se faz através do número de falsidades e encómios aos poderosos que produzem diariamente. E quanto aos venais tri-doutores, serão medidos pelo número de declarações públicas favoráveis aos donos de Portugal que realizam ao longo de um ano. Já no que diz respeito aos sacerdotes, a avaliação será complicada face ao número de variáveis em presença, mas inclino-me para a quantidade de almas que conseguem arrebanhar para a sua pregação conformista, ao longo de um ano. Por fim os generais, cuja produtividade é  fácil de avaliar. Sem dúvida que é  medida através do número de mortos que conseguem provocar em período de assassinatos guerreiros ou, nas alturas de paz,  pela quantidade de obedientes imbecis que  conseguem  gerar ao longo de um ano.
Esta poderá ser, realmente, a verdadeira forma de avaliar as gentes do poder, se forem medidas de acordo com os interessas que essa corja defende. E, muito para lá de quaisquer outros aspectos, a manutenção e reprodução de uma iníqua organização social, que lhes permita a sua manuentenção  como classe social. O que, no caso português, se torna cada dia mais complicado, face à perda das colonias e à  sua debilidade e incapacidade congénitas, factores a que se alia a feroz concorrência do capital gobalizado.
Por isso mesmo, utilizam crescentemente o único instrumento que dominam, a sobre-exploração do povo que,  para essa pandilha, constitui um custo variável e habitualmente manipulável, nem que para isso nos matem  fome.
Foi com semelhante espírito que recentemente um argentário-banqueiro, um tal Ulrich, seguiu o exemplo que se atribui a Maria Antonieta que, quando a multido esfomeada se queixava da falta de pão lhes repondeu, "Comam brioches".  Pois agora, o nababo Ulrich afirmou que os portugueses têm capacidade para suportar uma existência de ainda muito maior sofrimento, concluindo que, "Podem muito bem ficar sem casa e viver na rua".
 Ainda mais surpreendente que esta aleivosia é o facto de até agora ninguém ter desmascarado com a necessária firmeza semelhante patife e muito menos lhe ter dado a resposta que esse facínora merece, ou seja, lançá-lo nas àguas do rio Tejo.
Face a tudo isto, os donos de Portugal continuam a ampliar a asfixia em que nos mergulharam, enquanto em simultâneo nos vão prometendo gloriosos amanhãs cantantes. Na dianteira deste embuste desenfreado destaca-se o Coelho, primeiro-ministro, que tem o desplante de garantir que já se notam melhorias e em 2014 iniciaremos um esplêndido progresso.
Perante estes destruídores da vida e da esperança, falsos profetas que nos prometem um amanhã de delícias, sabendo que esse paraíso jamais se realizará, mas no qual, simuladores consumados que são, insistem diáriamente, apetece relembrar o poeta António Aleixo que, muito a propósito, disse:
Vós, que do alto do vosso império
Prometeis um mundo novo
Cuidado, não vá o povo
Querer um mundo novo a sério!

SOBRE A PENÚRIA NA ALIMENTAÇÃO


Quantos de nós se querem alimentar e não podem, passam fome ou comem alimentos impróprios para a saúde? Milhões em Portugal, biliões no mundo. Porque é que se destroem alimentos, enquanto tanta gente passa fome e luta com dificuldades para se alimentar? Porque é que se deita o peixe pescado ao mar, se deixa apodrecer a fruta e se abandonam os campos que poderiam produzir alimentos? Tantas perguntas e tão poucas respostas, para além da conversa da treta dos mercados, da crise e por aí fora. Tudo isso dito em tom que não admite resposta pelos políticos, economistas, propagandistas desta situação e outros simuladores da mesma espécie. Todos eles se apresentam bem nutridos, reluzentes, brilhantes e bem vestidos, e não fazem ideia do que são dificuldades. Embora todos nos assegurem que este é um problema muito complexo dos tais mercados, que todos ignoram menos eles, e é preciso apertarmos ainda mais o cinto para que venha aí um maná de prosperidade num futuro desconhecido..
È essencial combater esses aldrabões enfarpelados, as suas mentiras e falsas promessas, se quisermos sair do lodaçal em que esta corja nos mergulhou.
Antes do mais, convém salientar que nesta organização social existente, o capitalismo, todos os actos dos capitalistas têm uma intenção fundamental, a obtenção de lucro. Ganhar dinheiro e ter segurança no capital investido, é o que interessa aos capitalistas, donos de super mercados, bancos, sociedades de investimentos, propriedades agrícolas, fábricas e todos os restantes factores de produção, de troca e financeiros. Essa gente é que decide, sem nos consultar nunca, o que devem fazer. Fecham fábricas, deixam os campos ao abandono, especulam, jogam na bolsa, fazem guerras e muito mais, com um único objectivo, o lucro, o seu guia, deus e senhor. Não lhes interessam as necessidades do povo, e o seu sofrimento. Limitam-se a controlar-nos, sobretudo com propaganda e repressão de toda a ordem. Prosperam a fazer promessas de um futuro distante e, quando muito, concedem-nos uma caridadezinha, sempre muito útil na ausência da justiça. Mas receiam a liberdade verdadeira, que acompanha a dignidade e a igualdade. Esta igualdade só está presente no voto, mas é uma miragem na justiça social, que os aterroriza. A igualdade e a propagandeada democracia são completamente ignoradas por exemplo no local de trabalho, na justiça e na distribuição da riqueza produzida. Esta sociedade apregoa-se democrática mas somos obrigados a obedecer a tudo o que querem os chefes e patrões e a suportar que essa gente do mando e da riqueza esteja cada vez mais rica, enquanto o povo fica cada vez mais pobre. Onde estão a liberdade e a justiça?
Essa gente do dinheiro joga, por exemplo, na Bolsa de mercadorias de Chicago, onde se transaccionam as matérias-primas do mundo inteiro. Podem comprar seja o que for, como o trigo a 20 euros a tonelada, mas nem sequer querem o trigo, é pura especulação. Ficam com um titulo de compra para dali a 1 ano, por exemplo, receberem esse trigo a 20 euros/tonelada e nem sequer o utilizam. Tratam de o revender a um preço mais elevado a outros especuladores, retirando lucros chorudos. Esses outros muitas vezes também vendem esse título de compra a um preço ainda mais elevado, ficando com a diferença, ou seja, obtendo bom lucro. E isto acontece inúmeras vezes. Resultado, o preço de 20/euros a tonelada acaba por ficar a 35 ou mais e muitos desses compradores ficam-se apenas pela especulação, nem sequer se servem da mercadoria real. Por isso os preços do trigo, como os de muitos alimentos, aumentam brutalmente e muitas pessoas não conseguem depois adquirir os produtos que tem o trigo como matéria-prima, casos do pão, das massas e tantos e mais. E isto passa-se com tudo, carne, peixe, fruta e por aí fora.
Mas também dentro de um país, como em Portugal, a especulação floresce e os bancos,  que financiam os proprietários, na agricultura como outras fases da produção, pedem juros exorbitantes pelos empréstimos. Quem paga tudo isso? O consumidor naturalmente e por isso, aqueles de poucas posses,  muitas vezes não conseguem alimentar-se devido aos preços elevados e aos baixos salários e reformas.
No meio de tudo isto o Estado apoia estes salteadores do povo, e invoca a crise e outras cortinas de fumo apenas com uma intenção, evitar que reivindiquemos aquilo que é nosso, fruto do nosso trabalho, passado e presente.
Alguns podem perguntar, mas não há leis que evitem isto? Há leis, claro, feitas e sobretudo aplicadas, pelos interessados em que tal estado de coisas se mantenha. Leis concebidas para defender estes exploradores e afastar-nos da defesa dos nossos interesses.
 “Escolham os vossos representantes”, dizem os políticos profissionais, durante os períodos eleitorais, mas nós, que sustentamos toda a engrenagem com o nosso trabalho, não podemos alterar esta roubalheira, nem somos ouvidos quando eles concebem as leis do nosso descontentamento. A igualdade nesta democracia é só de 4 em 4 anos, perante o voto. E, no entanto, somos nós que temos produzido toda a riqueza ao longo dos séculos. O poder do estado é destinado a defender essa canalha. Já viram alguma vez a policia ir prender um capitalista que nos mente e explora? Mas se ocuparmos a fábrica em protesto, não faltam polícias para nos atacarem. E também nunca se viu um político profissional no desemprego.
A ligação entre os capitalistas e os chamados homens de estado é mais do que evidente, saltam a cada momento de um taxo do estado para o de uma companhia ou banco e vice versa, e defendem os mesmo tipo de interesses, ou seja, o domínio sobre o povo e a exploração.
É chegada a altura de reflectirmos sobre tudo isto, de dizermos basta! e agirmos de forma autónoma e livre. Antes que esta gente do dinheiro e do poder nos reduza a pão e água, para entregarem mais dinheiro aos bancos e manterem esta cruel e caduca organização social.